Brasilidade Empresarial · Entrevista
Cristiana Grether, a brasileira à frente do design da Danone
Publicada em 10 de julho de 2024. Entrevista conduzida por Fabiana Di Pietro.

Ela é a primeira pessoa a ocupar um cargo global de design na Danone e tem o desafio de reestruturar a identidade visual das 10 marcas internacionais da empresa. Seu nome é Cristiana Grether, brasileira e Head Global de Design da companhia, Cristiana entrou no mundo das grandes multinacionais há 13 anos e, desde então, seu propósito tem sido elevar o pensamento do design em grandes corporações.
Você se reinventou no mundo corporativo e cresceu aqui fora. Além da sua inegável capacidade técnica, quais características da Brasilidade Empresarial te ajudaram a chegar aqui?
Ao longo da minha carreira, recebi muitos feedbacks sobre minha resiliência e coragem. Hoje, reconheço essas qualidades em mim. Não tenho vergonha de me candidatar a uma posição mesmo que não tenha muita chance, ou de apresentar algo que pode não ser aprovado. Meu pai sempre dizia que o "não" a gente já tem, precisamos tentar o "sim". Aqui fora, vejo muitas pessoas desistindo antes mesmo de tentar, mas para mim, tentar é o mínimo que podemos fazer por nós mesmos.
Acredito que isso me ajudou a sair do país sem perspectiva de emprego, a famosa “mão na frente e outra atrás”, e conseguir entrar na Landor, uma das grandes agências de design em Londres, algo que nunca imaginei ser possível. Também foi essencial quando fiz a transição para o mundo corporativo, primeiro na Coca-Cola e, nos últimos anos, na Danone. Essas características continuam a me ajudar no meu dia-a-dia, seja ao fazer um pitch das minhas ideias ou ao tentar expandir o design na organização.
Como foi essa transição para o mundo corporativo?
Foi um susto! (risos) A verdade é que eu estava morando em Londres, de licença maternidade, preocupada em como conciliaria a vida de designer em uma agência que exige muitas horas extras, com a rotina de um bebê. Do nada, recebo uma mensagem no LinkedIn de uma recrutadora me chamando para um processo seletivo na Coca-Cola. Fui para o Brasil, fiz o processo e me chamaram. Mas a vaga era para a Costa Rica, então não aceitei naquele momento. Um mês depois, me ligaram dizendo que havia uma nova vaga, dessa vez no Brasil.
E depois?
Quando cheguei na Coca-Cola Brasil, entrei para desenvolver o Design Center of Excellence deles. O projeto durou alguns anos, ganhou visibilidade e, em 2015, fui promovida a Diretora Global na sede da Coca-Cola em Atlanta, EUA. Minha meta era capacitar o time de marketing, nos diversos países. Em 2019, entrei na Danone para formar o primeiro time Global de Design da empresa e criar uma nova visão de design para a Danone mundialmente. Hoje, grande parte do meu trabalho é desenvolver as identidades visuais dos ativos da empresa de forma global, sistêmica e unificada.
Como você mesma diz, o design vai muito além do estético. Como você tem trabalhado isso nas empresas?
Primeiramente, com respeito pelas pessoas, o que para mim é essencial. Já até atrasei prazos porque coloquei meu time em primeiro lugar. Ao mesmo tempo, tento inspirar e motivar as pessoas, sejam quem forem. Semana passada, fui dar uma palestra em Amsterdam para um grupo que trabalha com produção, super pragmáticos. Ao final, vi que teve um impacto positivo. Acredito que isso aconteça porque tenho tanta paixão pelo bom design, aquele que soluciona um problema e melhora as coisas, que falo com os olhos brilhando. As pessoas percebem que é genuíno. Sabe quando você fala de algo com o mesmo carinho que fala de um filho?
Também me preocupo em criar espaços onde as pessoas se sintam confortáveis, seja numa reunião ou em um workshop. Sou muito horizontal, não tenho uma forma especial de falar com ninguém. Promovo um ambiente onde todos se sentem à vontade para colocar ideias na mesa, até mesmo aquelas que parecem absurdas. Nesse caso, já me disseram que quando dou um feedback, consigo ser assertiva sem ser ofensiva, mantendo o time na direção correta. É importante continuar sendo quem somos, independentemente de com quem estamos falando. Ao mesmo tempo, é igualmente importante criar um ambiente seguro para que os outros também se sintam à vontade para serem eles mesmos.
O que te motiva hoje?
Ver minha filha crescer e estar presente, de fato. O olhar do designer. E também a liberdade que a idade nos dá de fazer o que quisermos. Parece que a vida começa o tempo todo e você pode fazer tanta coisa.
Para fechar, para quem está começando ou quer trabalhar no mercado internacional:
Depois de muitos anos, fico feliz e honrada de poder dar alguma esperança para designers brasileiros. De dizer que podemos fazer algo além do nosso bairro. Reconheço que não é fácil viver distante, porque também morro de saudade da nossa cultura, e estar longe é um trade-off que me corta o coração. Mas para quem tem vontade de sair e tentar algo maior, é possível. Somos mais reconhecidos do que imaginamos. Se você ralar e mantiver o seu jeito de ser, dá para chegar em muitos lugares.
Você é um líder brasileiro atuando na Itália ou na Europa?
A Comunidade Executiva da Brasilidade Empresarial reúne executivos brasileiros para compartilhar experiências, ampliar conexões e transformar trajetórias individuais em inteligência coletiva.