Brasilidade Empresarial · Entrevista
Carlos Eduardo de Lima, liderança brasileira por trás da transformação global na qualidade da GSK
Publicada em 18 de junho de 2025. Entrevista conduzida por Fabiana Di Pietro.

À frente dos processos globais de Controle de Qualidade, ele conecta estratégia, operação e tecnologia com foco em simplicidade, execução e impacto.
Diretor Global de Controle de Qualidade da GSK, Carlos Lima lidera a transformação dos processos de planejamento e agendamento da área em escala mundial. Ele integra qualidade, supply chain e inovação digital para garantir agilidade, eficiência e conformidade na produção de medicamentos e vacinas.
Com passagens por Novartis e Nestlé, Carlos construiu sua trajetória entre Brasil, Itália e o mundo, atuando como elo entre a operação e a estratégia. Em tempos de inteligência artificial, seu diferencial continua humano: clareza na comunicação, foco na execução e senso crítico para transformar complexidade em decisões práticas e eficazes.
Nesta entrevista, ele fala sobre o futuro da indústria farmacêutica, o valor da brasilidade em ambientes globais e sua escolha por uma vida com mais equilíbrio e propósito.
Qual foi o ponto de virada que colocou você no centro da transformação global da GSK?
Tudo nasceu de uma experiência local, quando eu liderava a operação de Controle de Qualidade da GSK, no site de Siena. Eu e meu time implementamos, de forma independente, um sistema de padronização de qualidade. Foi a primeira entrega 100% concluída da empresa. Isso me levou a criar o business case para uma solução única global. Quando o projeto foi aprovado, me convidaram para liderar — e depois, assumir a responsabilidade global.
Esse projeto também ganhou força pela minha vivência em empresas e segmentos distintos, o que trouxe repertório e credibilidade. Mesmo não sendo técnico de sistemas, conheço a operação e traduzo necessidades reais em soluções viáveis. Isso ajuda a construir sistemas úteis e aderentes à realidade, evitando soluções teóricas desconectadas da prática.
Como foi a transição de um papel operacional para um estratégico?
Foi uma mudança importante. Quando você está na operação, tudo é urgente. É muita responsabilidade, muito consumo de energia. Durante o Covid, não tive uma parada. Eu trabalhei todos dias desde o primeiro dia da pandemia. Já no papel global, você sai da urgência do hoje e passa a trabalhar pensando no amanhã. É mais estratégico, mais voltado a criar padrões, planejar o futuro.
Quando você estava começando, você se via no futuro como alguém que transformaria os padrões globais de qualidade de uma gigante farmacêutica?
Na verdade, não. Dois anos antes do vestibular, eu queria ser advogado — meu pai é advogado, e eu gostava de debater. Mas também tinha afinidade com química. Um dia, participei de uma olimpíada de química e fui classificado em primeiro lugar. Aquilo ficou. Aí vi que a química fazia sentido. Era simples, intuitiva. Então, em algum momento, ficou claro que esse era um caminho possível. Na época meu pai até me perguntou se eu tinha certeza, porque ele não teria condições de pagar outro curso. Então, eu sabia que precisava decidir e seguir com aquilo. Tinha que fazer dar certo. Nunca me arrependi.
E como você acabou na indústria farmacêutica?
Foi quase sem querer. Eu estava procurando uma oportunidade de trabalho e surgiu uma vaga na área de Controle de Qualidade da Cyba-Geigy, que depois de uns 6 meses virou Novartis. Acabei entrando e, sem perceber, estava completamente envolvido com o universo da qualidade farmacêutica — e foi onde me encontrei. Anos depois, minha mãe me mostrou um caderno da época da escola, em que eu tinha escrito que queria trabalhar na Cyba-Geigy. Nem lembrava disso.
A sua trajetória começou na empresa que você escreveu no caderno de escola que queria trabalhar, e depois?
Trabalhei por quase 12 anos na Novartis, depois fui para a Nestlé por quase 6 anos, e mais tarde retornei à Novartis, já focado em vacinas. Cada uma dessas experiências foi única: diferentes culturas, segmentos e formas de operar. Mas todas me mantiveram conectado com a qualidade e com laboratório. E foi esse repertório diverso que me preparou para o papel global de hoje.
E como surgiu a oportunidade de sair do Brasil e seguir carreira internacional?
Não foi planejado, mas o interessante é que eu quase fui para os Estados Unidos antes quando trabalhava na Nestlé, por causa de um projeto global. Acabou não acontecendo. Depois, surgiu a oportunidade de integrar um projeto de fábrica de vacinas no Nordeste do Brasil. Com a transição da Novartis para a GSK, o projeto foi encerrado. A GSK decidiu realocar os profissionais, e em seguida veio o convite para vir para a Itália. Não era um sonho, mas as coisas foram acontecendo.
Falando no internacional, como liderar um projeto dessa escala, com tantos países e contextos diferentes?
Com clareza e simplicidade. Gosto de planejar com muito detalhe, mas sem rigidez. É uma mistura de estrutura tradicional com agilidade. O importante é que o time saiba para onde está indo. Não adianta entregar algo bom quando já não é mais necessário. O timing é fundamental.
Também acredito que conhecer a operação ajuda muito: um sistema global que não reflete a realidade do dia a dia, não funciona. Eu não sou técnico de sistema, não sei programar — mas sei exatamente o que o sistema precisa fazer para funcionar na prática. Isso faz diferença.
E como sua equipe responde a esse estilo de liderança?
Eles sabem que podem contar com uma direção clara. Gosto de me comunicar de forma acessível, para que ninguém fique na dúvida. Isso traz segurança e dá velocidade ao time.
Você vê a aplicação da inteligência artificial nesse contexto - como aliada ou ameaça?
Como aliada, com desafios. A IA pode acelerar o desenvolvimento de produtos e substituir tarefas técnicas padronizadas. Mas o diferencial humano será o senso crítico: interpretar variáveis e decidir com consciência. Isso, a IA ainda não faz.
Você mencionou antes que trabalhar com o estratégico tira aquela urgência do operacional. Como é sua rotina hoje? O que você faz fora do trabalho?
Hoje eu valorizo muito meu tempo pessoal. Gosto de cuidar do jardim, andar de moto, curtir o pôr do sol na Toscana. Procuro aproveitar o tempo com a família. Foram escolhas que fiz nos últimos anos e estou muito feliz com isso.
Que conselho daria aos jovens brasileiros que sonham com uma carreira internacional?
Faça escolhas e enfrente as decisões. Cada escolha é uma renúncia. Mas é possível construir algo bom com o que temos. Acredite. Eu não tinha certeza de que ia dar certo — mas fui com disposição para fazer dar certo. O brasileiro se adapta, e isso é uma força. Saber lidar com o novo, manter o bom humor mesmo nos desafios e se conectar com diferentes culturas é algo muito nosso. E faz toda a diferença em ambientes globais.
Costumo dizer: não tenha sonhos, faça planos. Sonho é abstrato, inatingível. Plano é uma coisa concreta, factível. E mais que planejar: execute. É assim que eu sempre tentei viver. É assim que cheguei até aqui.
Você é um líder brasileiro atuando na Itália ou na Europa?
A Comunidade Executiva da Brasilidade Empresarial reúne executivos brasileiros para compartilhar experiências, ampliar conexões e transformar trajetórias individuais em inteligência coletiva.